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Pabllo Vitar: a trajetória do garoto pobre que virou estrela

Paulo Arthur | 11:29 |


Quando se “apresentava” na calçada de chão batido da Segunda Travessa do Espírito Santo, no bairro de Cangalheiro, na periferia de Caxias, no interior do Maranhão, Phabullo Rodrigues da Silva já sonhava com o estrelato. Ainda que a carreira artística fosse algo impensável e distante daquele cotidiano de pobreza e olhares tortos, o menino tímido, alto e delicado sabia onde queria chegar.

Prestes a completar 23 anos, Pabllo Vittar conquistou seu lugar no cenário musical, é popular, uma boneca viva para as crianças, a drag queen que jogou na cara da tradicional família brasileira sua voz aguda, o cabelão e um recado: vão ter de engoli-lo(a) durante muito tempo.

O caminho até aqui, no entanto, foi tão sinuoso quanto suas curvas. Pabllo jamais conheceu o pai e viu a mãe, Verônica Rodrigues, criar três filhos sozinha com um salário modesto de técnica de enfermagem.

Vindo de uma família grande formada pelo avô Aquino, que teve mais de 20 filhos, Pabllo tinha nas primas e tias a proteção que precisava quando o olhar machista o perseguia. “As pessoas riam dele dançando na porta de casa. Agora querem pedir foto, dizem que o conhecem”, conta a prima Gislany Gleyce: “Ele sempre foi esforçado, inteligente. Ganhou bolsa para fazer curso de inglês. Pegava tudo rápido”.

A cabeleireira se lembra bem das primeiras apresentações de Pabllo. “Ele nunca se montou na cidade. Mas tinha bom gosto e dentro das possibilidades dele conseguia arrumar o cabelo, fazer maquiagem, ter uma roupinha legal”, recorda ela, que via o avô bufar algumas vezes com seu neto requebrando ao som de Beyoncé. “Ele dizia para Pabllo entrar para casa, que aquilo não era coisa de homem. Hoje, tem o maior orgulho”.

A identificação com Beyoncé era tanta que o primeiro nome artístico tinha o sobrenome da diva. Foi como Pabllo Knowles que ele deu os primeiros passos na carreira. Por pouco, a música não foi trocada pelas escovas e tesouras. Ao se inscrever num projeto social, Pabllo procurou um curso de cabeleireiro. Mas dois professores de canto prestaram atenção naquela voz incomum e incentivaram o garoto a continuar sonhando.

Quando o apresentador Thiago Miranda estreou um programa semanal na TV local, Pabllo não saía de sua plateia. “Ele pedia sempre para cantar e dançar. Eu não sabia nada sobre o Pabllo”, recorda o maranhense: “Um dia o chamei para o palco e vi que o talento dele era indiscutível”.

Foram cerca de 40 participações em dois anos de programa. Algo que começou a incomodar a direção da emissora na época. “Me chamaram e disseram que era para dar uma parada porque a família caxiense não estava achando legal. Retruquei e disse que chamaria Pabllo quantas vezes eu quisesse porque era a família caxiense que o queria ali”, desafiou.

Logo depois, Pabllo foi parar em Belo Horizonte, segundo Thiago, para se inscrever num programa de calouros. A prima Gislany conta que o sonho dele era cantar no palco do Raul Gil. “Acabou não acontecendo e o sucesso dele chegou antes”, avalia ela.

O rapaz, que fazia shows em troca de fatias de pizza no início da carreira, hoje é estrela de campanhas de multinacionais, fatura cerca de R$ 80 mil por show, tem a agenda bloqueada até o primeiro trimestre de 2018 e já faz parcerias internacionais. “Quando ele fazia Faculdade de Moda em Belo Horizonte, cheguei a ligar e o chamei para um projeto com um DJ em São Luis do Maranhão. Ele me disse que queria tentar a carreira no Sudeste um pouco mais. Logo depois, gravou o CD dele e estourou. Ainda bem que ele não voltou”, avalia Thiago.

Os dois voltaram a se encontrar por acaso numa gravação de “Amor e sexo”. “Fui a convite de um bailarino amigo e estava na plateia quando Pabllo me viu e se emocionou. Fora daquela personagem, aquele mulherão que enfeitiça, ele é o mesmo garoto gentil e carinhoso de antes. Um cara que nunca negou quem era e não fez tipo, mesmo transitando num universo machista e preconceituoso. Pabllo é hoje um ícone para uma geração. Alguém que chegou lá sendo quem é”.

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